Casais contam como funcionam as viagens liberais e o que rola por lá

Matéria Publicada no UOL VIAGEM – 23/11/2016

Casal First Tour

Para quem nunca fez, uma viagem liberal soa como uma orgia ininterrupta, do café da manhã até o jantar. Na prática, não funciona bem assim. O sexo certamente está no centro das atenções, porém, o que prevalece é o clima de sensualidade.

Tanto nos resorts quanto nos cruzeiros liberais, as atividades e os ambientes são criados para estimular os casais e aproximá-los, mas sem a mesma pressa que existe em uma casa de swing. “Envolve não só a prática do sexo trocado, mas também a oportunidade de conhecer bem outro casal”, diz Marina*, 36, psicóloga, que todo ano faz pelo menos um passeio liberal com o marido Marcio*, 41, empresário.

Para quem acha que, ao entrar no hotel ou no navio, será como estar dentro de um filme pornô, Marina desmistifica a fantasia. “Não se vê casais transando em qualquer lugar, de qualquer jeito. A maioria das mulheres prefere esperar a noite cair para transar, porque o escuro esconde as imperfeições”, explica a psicóloga, adepta do swing há mais de uma década e autora do blog “Marina & Marcio“, onde relata suas aventuras e dá dicas para os iniciantes.

O dia típico em um hotel ou cruzeiro liberal começa com os casais conversando no café da manhã, para se conhecer e buscar afinidades. Ao longo do dia, alguns fazem passeios turísticos e visitam praias naturistas, outros aproveitam para ficar na piscina e todos esperam com ansiedade o cair da noite, para participar das festas temáticas.

“As mulheres usam fantasias ou roupas muito sensuais. Depois da balada, todos se encontram em uma hidro quentinha para acabar a noite com muito sexo ao ar livre olhando a lua”, conta Cris*, 52, de Camboriú (SC), sobre sua experiência com o marido Caco*, 53, em Cancún.

Arquivo pessoal

Casal First Tour  Casal First Tour

Marina aproveita a Praia do Pinho, point naturista em Balneário Camboriú (SC)

Check in com nome falso e fotos para despistar

Geralmente, a nudez é permitida nas áreas comuns, mas não obrigatória. O sexo grupal, seja nos hotéis ou nos cruzeiros, fica mais reservado aos quartos e aos “playrooms” – salas ou espaços montados especificamente para a interação dos casais.

Apesar da fama de sensualidade, os brasileiros são tímidos na hora de tirar a roupa. “Eles ainda são minoria nos cruzeiros liberais, tendem a ser mais conservadores e não gostam muito de ficar nus”, diz Paulo Macedo, proprietário da agência Casal First Tour, que trabalha há 11 anos nesse segmento.

Para Macedo, o ponto alto das viagens está no convívio e na intimidade compartilhada entre os casais, que têm tempo para construir boas amizades e dividir histórias que somente esse ambiente permite. “A ideia é sensualizar e formar laços, diferente do clube de swing, em que só há tesão e impulso”, explica.

Os casais que procuram esse estilo de roteiro, geralmente, estão acima dos 30 anos de idade, têm vários anos de união, possuem uma boa condição financeira e filhos já criados, como Cris e Caco, juntos há 34 anos, e Marina e Marcio, com mais de 15 anos de casamento.

“São pessoas que desejam viver aventuras no anonimato, longe de casa”, resume Paulo Macedo. Para proteger a identidade dos clientes, os estabelecimentos aceitam check-in com nome falso. Além disso, é comum os casais tirarem algumas fotos tradicionais no destino para enviarem à família e aos amigos, a fim de não levantar suspeitas.

Divulgação/Desire Resorts

Casal First Tour  Casal First Tour  Casal First Tour

Vista área do resort “Desire Riviera”, resort liberal na região de Cancún

Paraísos liberais

Existem diferentes opções de viagens liberais, em terra ou alto-mar. No Brasil, atualmente, há apenas duas pousadas exclusivas para essa finalidade: uma em Arraial D’Ajuda (BA) e outra na praia de Tambaba (PB). Algumas agências de turismo, no entanto, costumam fechar hotéis convencionais para eventos liberais, com pacotes de três a quatro dias a partir de R$ 2.500 por casal.

Como o Brasil ainda está engatinhando nesse segmento, muitos adeptos preferem as viagens internacionais. Os paraísos liberais mais populares são resorts na região de Cancún e os hotéis da vila naturista Cape D’Agde, no sudoeste da França. Nos hotéis liberais de Cancún, as diárias giram em torno de US$ 500 a US$ 800 por casal (aproximadamente de R$ 1.700 a R$ 2.700, em valores convertidos em 24/11/2016), conforme a baixa ou alta temporada, com todas as bebidas e refeições incluídas.

Várias companhias também oferecem cruzeiros liberais, com diferentes preços e destinos, e onde a programação de shows e festas é mais intensa. Os mais baratos saem da Flórida, nos Estados Unidos, em navios que comportam até duas mil pessoas, a partir de US$ 1.500 por casal (cerca de R$ 5.100). Para quem prefere roteiros mais exclusivos, há opções para cerca de 300 casais que passa por Itália e Croácia, entre outros países. Nestes, o investimento fica acima dos 6 mil dólares ou euros por casal, conforme o tipo de acomodação.

Nas viagens internacionais, a falta de um idioma em comum pode complicar a comunicação. As agências costumam fazer esse meio de campo para ajudar os casais a se integrarem melhor com os outros viajantes. Apesar de se sentir mais à vontade nas viagens nacionais, por causa da cultura similar, a psicóloga Miriam*, 56, de Salvador (BA), não passou aperto com o marido Luciano*, 69, empresário, no cruzeiro que fez para a Croácia. “As palavras ‘yes’ ou ‘no’ funcionam muito bem na hora do sexo e a troca de olhares é universal”, diz.

Segundo Rodrigo*, do casal Sol e Nieve, conhecido no meio liberal e que mantém uma agência de viagens liberais com o mesmo nome, cada cultura tem uma forma diferente de se aproximar e flertar. Apesar de não serem muito adeptos da nudez, os brasileiros se destacam nesse ambiente. “Porque são quentes, exóticos, todos querem ser amigos dos brasileiros”, revela.

Arquivo pessoal

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Marina e Marcio fazem pelo menos uma viagem liberal por ano

Na chuva sem se molhar

O provérbio “quem está na chuva é para se molhar” nem sempre se aplica a quem embarca em uma viagem liberal. “Os casais não necessariamente querem fazer troca, alguns gostam apenas de estar em um ambiente sensual e sedutor”, afirma Rodrigo.

A entrega aos novos prazeres costuma ser gradual. “Na primeira viagem você chega de mansinho. A maioria é assim, fica só observando. Você quer desfrutar de uma liberdade que ainda não tem”, conta Miriam, que se julgava conservadora e tinha muitas dúvidas se iria apreciar a experiência. “Será que vou ser obrigada a fazer alguma coisa? E se eu não gostar, o que eu faço?” eram os questionamentos que passavam pela cabeça dela.

A primeira transa foi acontecer somente lá pela quarta viagem. Depois de oito anos viajando, Miriam aguarda ansiosamente pela próxima aventura. “Gostei tanto que continuei, agora já começamos a nos excitar antes de viajar, procuro roupas novas, não quero repetir lingeries”, diz ela, que curte mais as brincadeiras e jogos de sedução do que qualquer outra coisa.

Cris também sentiu nervosismo e insegurança no primeiro passeio liberal. O sexo ficou restrito ao casal e a abertura para outros parceiros foi evoluindo com o tempo. “É tudo muito excitante e fascinante. Na primeira troca, houve muito ciúmes por parte do meu marido, mas nada que não se resolva com uma boa conversa”.

Para quem não tem experiência, o início funciona como um período de estudo, de aprender as reações um do outro e de determinar os limites que deverão ser respeitados. “Não gosto que ele beije na boca”, confessa Miriam.

Se o casal ainda não tem suas regras bem definidas, vale a pena conversar bastante antes da viagem para não estragar a diversão com DR (discussão de relacionamento). “É interessante pensar se devem ficar o tempo inteiro juntos ou não, se podem beijar na boca, transar em ambientes separados ou não”, sugere Marina, que já superou essa fase e adoraria fazer sexo grupal a viagem toda, mas nem sempre é assim.

“Não espere transar o tempo todo nem pegar a mulher mais gostosa da excursão. Pense no lugar que vai conhecer, nas paisagens, nas comidas, nas compras. A viagem liberal é uma experiência completa, que inclui, se você quiser, sexo com outras pessoas”, aconselha.

* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados

Fonte: http://viagem.uol.com.br/noticias/2016/11/23/casais-contam-como-funcionam-as-viagens-liberais-e-o-que-rola-por-la.htm